500/39- Bolsonaro e Jonestown: Os Sinais de um Culto Político no Brasil Contemporâneo


Bolsonaro e Jonestown: Os Sinais de um Culto Político no Brasil Contemporâneo



Por Osvaldino Vieira de Santana

23 de novembro de 2025


Em diferentes momentos dos últimos anos, pesquisadores, jornalistas e analistas internacionais compararam o fenômeno do bolsonarismo a dinâmicas típicas de cultos religiosos autoritários. Entre essas leituras, duas ganharam destaque: o artigo do professor David Nemer, da University of Virginia, publicado originalmente na revista norte-americana Salon e repercutido no Brasil pelo Diário do Centro do Mundo, e a coluna do jornalista José Nêumanne, publicada em O Estado de S. Paulo, que intitulou Jair Bolsonaro como “o Jim Jones do Vale do Ribeira”.


A evocação do nome de Jim Jones — líder da seita Templo do Povo e responsável pelo massacre de Jonestown, em 1978, quando 909 pessoas morreram na Guiana — não se dá pela equiparação literal dos acontecimentos, mas pelo reconhecimento de mecanismos de liderança, manipulação psicológica e mobilização cega que se repetem em contextos distintos.


O que os estudiosos têm apontado é que o bolsonarismo transcende a política convencional, assumindo contornos de culto ideológico no qual a figura do líder se torna o centro absoluto da verdade e da identidade coletiva.





O culto ao líder e a lógica da infalibilidade



David Nemer foi categórico ao afirmar que Bolsonaro opera como “líder de culto”. A construção do “mito”, amplamente difundida entre seus seguidores, segue a lógica messiânica típica de grupos de obediência absoluta: o líder é percebido como escolhido, ungido e moralmente superior, imune a críticas ou responsabilizações.


A reportagem do Estadão reforça esse ponto ao afirmar que Bolsonaro recorre repetidamente ao “bolsonarismo de raiz”, uma espécie de retorno às bases mais fanáticas de seu movimento, sempre que enfrenta crises ou ameaça de perda de poder.





Nós contra eles: o mundo dividido para controlar



Um dos mecanismos mais evidentes que aproximam Jonestown e o bolsonarismo é a construção de um universo binário e paranoico: o grupo puro contra o inimigo permanente.


Jim Jones afirmava que CIA, imprensa, governo e críticos externos estavam determinados a destruir sua comunidade. Bolsonaro, por sua vez, consolidou uma retórica na qual jornalistas, universidades, cientistas, artistas, opositores, STF e organismos internacionais são tratados como forças conspiratórias que ameaçam o Brasil e seu povo.


Esse ambiente constante de perseguição — real ou imaginária — cria coesão, medo e obediência. E, principalmente, reduz a capacidade crítica dos seguidores, que passam a operar em um sistema de fé, não de razão.





Desinformação como instrumento de controle



Tanto Nemer quanto Nêumanne destacam a forma como Bolsonaro cria uma realidade paralela, sustentada por redes de desinformação que substituem as instituições formais de validação: imprensa livre, academia, ciência, órgãos públicos.


Assim como Jonestown se isolava fisicamente, o bolsonarismo se isola epistemicamente, vivendo em bolhas digitais onde teorias conspiratórias — como “fraude nas urnas”, “vacinas com chips” ou “ameaça comunista” — funcionam como dogmas.





Obediência mesmo diante do absurdo



O ponto mais sensível da comparação está na disposição dos seguidores de aceitar qualquer narrativa, mesmo que contraditória ou autodestrutiva.


É esse elemento que remete ao colapso final de Jonestown, quando famílias inteiras seguiram cegamente a ordem do líder. No caso brasileiro, embora não exista correspondência literal, a lealdade incondicional que resiste a fatos, provas, vídeos, confissões e investigações demonstra que a estrutura psicológica é semelhante.





Política, religião e salvação nacional



As duas reportagens destacam, cada uma a seu modo, a fusão entre religiosidade, patriotismo e guerra moral. Bolsonaro é apresentado por parcelas significativas de seus seguidores como enviado divino, protetor da família e guerreiro contra o mal.


Essa sacralização do líder — amplificada por setores neopentecostais — cria um campo fértil para a lógica cultual: o líder não é apenas político, é salvador.


Jim Jones também misturava religião, política, utopia socialista e profecias apocalípticas.

O mecanismo psicológico é o mesmo: redenção coletiva pela obediência ao líder.





A geografia simbólica do culto: Jonestown e o “Vale do Ribeira”



Nêumanne invoca o “Vale do Ribeira”, região de origem de Bolsonaro, não apenas como referência territorial, mas como metáfora de um Brasil profundo, orgânico, resistente a debates institucionais.


Assim como Jonestown era o espaço físico do culto de Jones, o “Vale do Ribeira” funciona como espaço simbólico onde o bolsonarismo se ancora: comunidades, igrejas, redes digitais e grupos familiares que operam como núcleos de resistência identitária e fidelidade.





Por que essa comparação importa?



A comparação entre Jonestown e o bolsonarismo não exagera nem simplifica a realidade: ela aponta para mecanismos de manipulação coletiva, erosão da democracia, fetichização do líder e criação de realidades paralelas que são perigosos para qualquer sociedade.


Não se trata de previsão catastrófica, mas de alerta histórico.

Jonestown mostrou o que acontece quando um movimento político-religioso deixa de reconhecer limites éticos, institucionais ou racionais.


O Brasil não vive um cenário igual — mas vive, sim, um fenômeno de culto político com potencial destrutivo para o pacto democrático.


Compreender esses mecanismos é responsabilidade de todos que desejam um país equilibrado, plural e livre da servidão emocional a líderes autoritários.


Postagem Anterior Próxima Postagem

Formulário de contato