A Sexualidade na Arquitetura da Tirania
Necropolítica, Parafilias de Poder e a Psicologia da Destruição nas Lideranças Autoritárias
Por Osvaldino Vieira de Santana
Salvador (BA), 05 de março de 2026
A história da humanidade demonstra que guerras, genocídios e políticas de destruição raramente são apenas decisões estratégicas ou disputas geopolíticas. Por trás da maquinaria de morte que atravessa os séculos existe também uma dimensão psicológica e simbólica profundamente ligada à forma como determinadas lideranças compreendem o poder, o corpo e o desejo.
Nos últimos anos, pesquisadores da filosofia política, da psicanálise e da sociologia do poder têm apontado uma intersecção inquietante entre autoritarismo, repressão da sexualidade e necropolítica — conceito desenvolvido pelo filósofo camaronês Achille Mbembe para descrever regimes que exercem soberania através da gestão da morte.
Ao mesmo tempo, a filosofia política de Michel Foucault já demonstrava que o poder moderno não controla apenas territórios ou economias: ele controla corpos, desejos e identidades. A sexualidade, nesse sentido, torna-se um dos campos mais estratégicos de dominação social.
Quando essas duas dimensões se encontram — controle dos corpos e gestão da morte — surge uma arquitetura política capaz de transformar populações inteiras em alvos descartáveis.
Necropolítica: quando o poder decide quem pode viver
Segundo Mbembe, a necropolítica ocorre quando o Estado ou determinadas estruturas de poder passam a administrar a morte como instrumento de governo.
Isso se manifesta de diversas formas:
abandono deliberado de populações vulneráveis
políticas de extermínio ou encarceramento em massa
guerras permanentes contra inimigos fabricados
negligência estrutural em saúde, segurança ou alimentação
Nesse modelo, algumas vidas são consideradas dignas de proteção, enquanto outras são tratadas como descartáveis.
A necropolítica transforma a morte em política pública.
E, em muitos casos, essa lógica está associada à desumanização radical do outro — processo psicológico que permite aos governantes eliminar ou sacrificar populações sem qualquer empatia.
O poder como fetiche: a parafilia da dominação
Na psicanálise e na psicologia social, diversos estudiosos sugerem que a relação de certos líderes autoritários com o poder pode assumir características semelhantes às chamadas parafilias, quando o prazer psíquico está ligado a objetos ou práticas não convencionais.
Nesse contexto, alguns pesquisadores descrevem o fenômeno que pode ser chamado de parafilia do poder.
Nessa dinâmica:
o poder substitui o objeto de desejo
a dominação substitui a intimidade
a submissão alheia produz excitação psicológica
A libido — energia psíquica associada ao desejo — pode ser desviada da esfera afetiva e transformada em busca compulsiva por controle absoluto.
Esse processo, conhecido como sublimação destrutiva, transforma o prazer sexual reprimido em prazer de dominar.
O resultado é uma personalidade que encontra satisfação psíquica não no encontro humano, mas na submissão e na humilhação do outro.
Sadismo político e tirania
A tirania frequentemente apresenta elementos que lembram estruturas sadísticas.
O tirano:
necessita demonstrar poder constantemente
cria inimigos permanentes
utiliza a violência como espetáculo político
encontra gratificação na destruição do adversário
Essa dinâmica produz o que alguns estudiosos chamam de arquitetura perversa da destruição.
O sofrimento alheio passa a ser não apenas tolerado, mas politicamente útil.
Em regimes autoritários, a violência torna-se linguagem de poder.
A tirania da excitação
Pesquisas em psicologia política indicam que determinados líderes com traços autoritários apresentam comportamentos associados à adicção por excitação extrema.
A violência, o risco e a destruição funcionam como estímulos psíquicos intensos.
Guerras, perseguições ou crises constantes mantêm esses líderes em um estado permanente de excitação política.
Essa dinâmica cria o que alguns analistas chamam de cultura permanente de guerra, onde a paz se torna indesejável porque reduziria a intensidade emocional do poder.
O escândalo Epstein e a sombra da elite global
A relação entre poder, sexualidade desviada e estruturas de dominação ganhou nova dimensão com o caso do financista norte-americano Jeffrey Epstein.
Epstein foi acusado de organizar uma extensa rede de exploração sexual envolvendo menores e indivíduos pertencentes às elites econômicas e políticas globais.
Seu caso revelou um sistema sofisticado de proteção de poderosos e expôs como redes de privilégio podem operar acima das estruturas tradicionais de justiça.
A investigação também levantou uma questão perturbadora:
até que ponto estruturas de poder globais podem estar permeadas por práticas que combinam dinheiro, sexualidade desviada e influência política?
O caso Epstein tornou visível algo que historicamente sempre existiu nas estruturas oligárquicas: a utilização do corpo humano como moeda de poder e chantagem.
Sexualidade reprimida e política de guerra
Diversos estudos indicam que regimes fortemente autoritários apresentam duas características recorrentes:
repressão sexual intensa
militarização permanente da sociedade
Essa combinação não é casual.
Lideranças que defendem moralidades rígidas frequentemente utilizam a sexualidade como instrumento de controle social.
A imposição de normas rígidas sobre o corpo e o desejo cria sociedades disciplinadas, obedientes e mais suscetíveis à manipulação política.
Ao mesmo tempo, esses regimes constroem narrativas de ameaça constante — inimigos internos, minorias perigosas, culturas decadentes.
Esse ambiente de medo permanente justifica políticas de repressão e violência.
Corpos normativos e inimigos políticos
A necropolítica e a repressão sexual frequentemente convergem na criação de hierarquias de vida.
Alguns corpos são considerados legítimos.
Outros são tratados como ameaças.
Entre os grupos frequentemente alvo dessa lógica estão:
populações pobres
minorias raciais
povos indígenas
dissidências sexuais
opositores políticos
A política passa então a operar através de uma divisão brutal:
quem merece viver
e quem pode ser sacrificado.
Quando o poder se torna patologia
A análise psicológica da tirania não busca reduzir fenômenos políticos complexos a questões individuais.
No entanto, ignorar a dimensão psicológica do poder também seria um erro.
A história mostra que regimes violentos frequentemente emergem da combinação entre:
estruturas institucionais frágeis
crises sociais profundas
lideranças com personalidade autoritária
e uma relação patológica com o poder
Quando essas condições se encontram, o resultado pode ser devastador.
A educação como antídoto contra a barbárie
Diante desse cenário, a educação crítica torna-se um dos poucos instrumentos capazes de romper o ciclo histórico da dominação.
Sociedades que desenvolvem pensamento crítico conseguem reconhecer:
discursos de desumanização
manipulações baseadas no medo
projetos políticos que transformam populações em descartáveis
A democracia exige vigilância permanente.
Porque, quando o poder se transforma em fetiche, e a política se converte em instrumento de morte, a humanidade corre o risco de repetir seus piores capítulos.
A história do século XX mostrou que civilizações inteiras podem ser conduzidas à barbárie quando a tirania encontra terreno fértil.
A pergunta que permanece para o século XXI é simples e urgente:
seremos capazes de reconhecer os sinais antes que a máquina da destruição volte a se instalar?
Poesia:
A Libido da Guerra
Por Osvaldino Vieira de Santana
Nos salões do poder
onde tapetes escondem sangue antigo,
homens vestem ternos
mas carregam impérios de morte nos olhos.
Não gritam nos campos de batalha,
não puxam o gatilho nas trincheiras,
mas assinam decretos
que enterram povos inteiros.
Há algo mais profundo
que a geopolítica das armas.
Há uma sombra antiga
que habita a alma dos tiranos.
A libido que não encontra amor
aprende a amar o domínio.
O desejo que não encontra afeto
aprende a desejar o controle.
E assim nasce
a obscura alquimia da tirania:
o prazer de mandar
o prazer de dobrar corpos
o prazer de ver multidões ajoelhadas
diante de um trono vazio de humanidade.
Chamam isso de poder.
Mas talvez seja apenas
uma fome doente
de quem nunca aprendeu a amar.
Nas salas fechadas da história
os tiranos escrevem mapas com sangue.
Inventam inimigos.
Criam guerras.
Transformam crianças em estatísticas.
E dizem que é defesa da pátria.
Mas a pátria verdadeira
não precisa de cadáveres para existir.
A necropolítica ergue impérios
sobre cemitérios invisíveis.
Decide quem pode respirar
e quem deve desaparecer.
Os pobres.
Os negros.
Os indígenas.
Os diferentes.
Todos viram alvos
quando o poder perde a alma.
E então o mundo descobre
que a tirania não nasce apenas do medo.
Ela nasce também
de desejos reprimidos
que se transformam em máquinas de guerra.
A história já viu esse filme
muitas vezes.
Homens pequenos
com armas gigantes.
Egos feridos
com exércitos inteiros.
Mas sempre surge,
em algum canto do planeta,
uma voz que se recusa a ajoelhar.
Uma professora.
Um poeta.
Um estudante.
Um povo.
E essa pequena chama
— frágil, mas teimosa —
é a única coisa capaz
de derrotar a noite.
Porque a liberdade
não nasce do medo.
Ela nasce
da coragem de pensar.
E enquanto existir
um único ser humano
capaz de dizer não à tirania,
a história ainda terá esperança.