O Trabalho Sob Cerco: Precarização, Adoecimento e o Projeto Autoritário no Brasil
Por Osvaldino Vieira de Santana
Salvador/BA, 25 de fevereiro de 2026
(Texto que integrará o Capítulo 41 do 5º livro: “Sombras Autoritárias no Brasil: O Nazifascismo e a Ascensão do Bolsonarismo”)
1. O ataque às conquistas trabalhistas: o desmonte como método
As conquistas trabalhistas no Brasil não nasceram da benevolência do mercado nem da generosidade das elites econômicas. Foram fruto de lutas históricas, greves, organização sindical e mobilização popular ao longo do século XX. Desde a criação da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), em 1943, o país construiu um arcabouço mínimo de proteção social que reconhecia a assimetria estrutural entre capital e trabalho.
O que assistimos nas últimas décadas, especialmente a partir do ciclo político que culmina no governo de Jair Bolsonaro, é a consolidação de um projeto que trata direitos sociais como entraves ao crescimento econômico. A narrativa da “modernização” tornou-se o eufemismo para flexibilização, retirada de garantias e enfraquecimento da negociação coletiva.
A lógica é simples — e perigosa: transformar direitos em privilégios, trabalhadores em “custos” e proteção social em obstáculo fiscal.
Esse tipo de discurso não é neutro. Ele compõe o repertório clássico de projetos autoritários que, historicamente, atacam organizações sindicais, enfraquecem o poder coletivo e deslocam o conflito social para a esfera individual.
2. Pejotização e “empresários de si mesmos”: a nova morfologia da exploração
A chamada “pejotização” tornou-se um dos principais mecanismos contemporâneos de precarização. Sob a promessa de autonomia e empreendedorismo, o trabalhador é incentivado — ou pressionado — a se tornar pessoa jurídica para prestar serviços que, na prática, mantêm subordinação econômica e dependência estrutural.
Esse modelo, amplamente difundido por plataformas digitais e grandes corporações globais, desloca o risco empresarial para o indivíduo. O trabalhador assume custos operacionais, ausência de férias remuneradas, inexistência de 13º salário, insegurança previdenciária e vulnerabilidade contratual.
A ideologia do “empresário de si mesmo” mascara a realidade da subordinação algorítmica. Plataformas digitais concentram renda, dados e poder decisório, enquanto milhões disputam tarefas fragmentadas em um mercado hipercompetitivo.
A concentração de renda nas grandes empresas de tecnologia revela uma contradição central do capitalismo digital: quanto mais conectados estamos, mais concentrado se torna o capital.
A pejotização, nesse contexto, não é apenas uma estratégia jurídica; é um dispositivo político que dissolve a identidade coletiva do trabalhador. Ao fragmentar, individualiza. Ao individualizar, enfraquece. Ao enfraquecer, facilita a imposição.
3. O adoecimento psíquico como sintoma estrutural
O aumento substancial das doenças psicossomáticas entre trabalhadores não pode ser tratado como fenômeno isolado ou meramente clínico. A Burnout, também conhecida como Síndrome do Esgotamento Profissional, caracteriza-se por exaustão extrema, estresse crônico e esgotamento físico e mental.
Ela é o retrato de um modelo produtivo que combina metas inalcançáveis, vigilância constante, jornadas extensas e insegurança permanente.
O trabalhador precarizado vive sob dupla pressão:
- precisa produzir para sobreviver;
- precisa competir para não desaparecer.
O adoecimento deixa de ser exceção e passa a ser regra silenciosa. A saúde mental torna-se variável de ajuste da rentabilidade.
O que está em jogo não é apenas a produtividade, mas a própria dignidade humana. Quando o trabalho deixa de ser meio de realização e passa a ser mecanismo contínuo de desgaste, estamos diante de uma crise civilizatória.
4. Previdência, SUS e vacinas: o desmonte da proteção social
O ataque ao sistema previdenciário e às políticas públicas de saúde integra a mesma engrenagem.
O Sistema Único de Saúde (SUS) é uma das maiores experiências de saúde pública universal do mundo. Já o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) estrutura a proteção previdenciária que garante aposentadorias, auxílios e pensões.
Durante o governo de Jair Bolsonaro, observou-se:
- deslegitimação do conhecimento científico;
- ataques discursivos às vacinas;
- reformas previdenciárias que ampliaram exigências e dificultaram o acesso a benefícios;
- restrições orçamentárias em áreas sociais.
A pandemia evidenciou o papel indispensável do SUS e da vacinação em massa. Ao mesmo tempo, revelou a tensão entre ciência e negacionismo, entre política pública e desinformação.
Desfinanciar ou fragilizar esses sistemas significa transferir novamente o risco social ao indivíduo — exatamente como ocorre na pejotização.
5. A engrenagem autoritária: fragmentar para governar
O autoritarismo contemporâneo não se apresenta necessariamente com tanques nas ruas. Ele opera pela erosão gradual das garantias sociais, pela deslegitimação da ciência, pelo ataque aos sindicatos e pela glorificação de um individualismo competitivo.
A precarização do trabalho, o adoecimento coletivo, a concentração de renda nas plataformas digitais e o enfraquecimento da proteção social não são fenômenos desconectados. Integram um mesmo projeto de reorganização social, onde:
- o lucro se concentra;
- o risco se individualiza;
- a proteção se reduz;
- a solidariedade se dissolve.
Em “Sombras Autoritárias no Brasil”, sustento que a ascensão do bolsonarismo não pode ser compreendida apenas como fenômeno eleitoral. Trata-se de uma inflexão histórica que tensiona as bases do Estado Social inscrito na Constituição de 1988.
A pergunta que permanece é decisiva:
Aceitaremos a naturalização da precariedade como destino inevitável ou retomaremos a organização coletiva como instrumento de defesa da dignidade humana?
A história demonstra que direitos não são mantidos por inércia. São preservados por consciência, mobilização e coragem cívica.
O futuro do trabalho — e da democracia — depende dessa escolha.
Pejotização virou regra do jogo,
Cada um por si, esse é o novo slogan.
Direito virou privilégio,
E proteção virou peso no orçamento.
Enquanto isso, capital concentra,
Plataforma cresce, o salário encolhe.
O risco agora tem nome e endereço,
É o trabalhador pagando o preço.
E quando a mente pede socorro,
Vem o silêncio e mais esforço.
Burnout não nasce do nada,
É cobrança diária acumulada.
Negam vacina, negam ciência,
Atacam o SUS com negligência.
Fragilizam a Previdência social,
E chamam isso de ajuste fiscal.
Mas a história já ensinou,
Direito só vive se alguém lutou.
Quando o povo aprende a se organizar,
Nenhum sistema consegue calar.